Pesquisar sobre métodos contraceptivos costuma gerar mais dúvida do que clareza. DIU de cobre, DIU hormonal, Kyleena, Mirena, Implanon — os nomes se acumulam, e cada um traz uma experiência diferente relatada por diferentes pessoas, o que só aumenta a insegurança na hora de escolher.
Não existe um método “melhor” de forma geral. Existe o método mais adequado para o momento de vida, o padrão menstrual e as prioridades de cada paciente — e essa é uma decisão que se constrói em consulta, não em uma pesquisa isolada na internet.
Para quem tem uma rotina intensa, um dos pontos mais valorizados costuma ser justamente não depender de uma ação diária, como lembrar de tomar um comprimido sempre no mesmo horário. É um dos motivos pelos quais métodos de longa duração, como o DIU e o Implanon, vêm ganhando espaço na conversa sobre contracepção — mas a escolha entre eles ainda depende de uma avaliação individual.
Neste texto, explico as diferenças entre o DIU de cobre, o DIU hormonal (nas versões Kyleena e Mirena) e o Implanon, e o que costuma ser avaliado antes de indicar cada um deles.
Os métodos disponíveis: uma visão geral
Antes de comparar, vale esclarecer um ponto que gera confusão: nem todo método de longa duração é um DIU. O DIU (dispositivo intrauterino) é inserido dentro do útero e pode ser hormonal ou de cobre. Já o Implanon é um implante subdérmico — um bastonete fino inserido sob a pele do braço, que libera hormônio de forma contínua para a corrente sanguínea. São locais e mecanismos de ação diferentes, embora ambos sejam métodos reversíveis de longa duração.
DIU de cobre: como funciona
O DIU de cobre não contém hormônio. Ele age liberando íons de cobre, que criam um ambiente hostil para os espermatozoides dentro do útero, impedindo a fecundação. Por não ter ação hormonal, ele não interfere no ciclo menstrual natural da forma como os métodos hormonais interferem — o que, para algumas pacientes, é a principal razão para escolhê-lo.
Em compensação, é comum que o DIU de cobre aumente o volume e a duração do sangramento menstrual, principalmente nos primeiros meses de uso, além de poder intensificar as cólicas. Para pacientes com fluxo menstrual já intenso, esse é um ponto avaliado com atenção antes da indicação.
DIU hormonal: Kyleena e Mirena
O DIU hormonal libera progesterona (levonorgestrel) diretamente no útero, em doses baixas e locais. Com o tempo, essa ação costuma reduzir o volume do sangramento menstrual — em muitas pacientes, o fluxo diminui de forma significativa, e em algumas a menstruação chega a cessar.
Aqui no consultório, trabalho com duas versões de DIU hormonal: o Kyleena e o Mirena. O Kyleena tem um anel de prata que facilita a visualização do dispositivo no ultrassom, com 52mg de hormônio no reservatório; o Mirena tem 19,5mg. A escolha entre um e outro depende do padrão menstrual de cada paciente e é sempre definida em consulta, e não de forma padronizada.
Implanon: o implante subdérmico
O Implanon é um bastonete flexível, do tamanho de um palito de fósforo, inserido sob a pele da parte interna do braço, em um procedimento rápido feito em consultório. Ele libera etonogestrel — outro tipo de progesterona — de forma contínua, direto na corrente sanguínea.
Por não envolver a inserção de um dispositivo dentro do útero, costuma ser uma opção considerada por pacientes que preferem evitar esse tipo de procedimento. Em compensação, é comum que o padrão de sangramento se torne irregular durante o uso — algo que também é discutido antes da indicação, já que a forma como cada organismo responde varia bastante.
Por que considerar um método de longa duração
DIU e Implanon fazem parte do grupo de métodos contraceptivos reversíveis de longa duração. A principal vantagem desse grupo é não depender de uma ação diária ou repetida, como lembrar de tomar um comprimido no mesmo horário todos os dias — o que reduz consideravelmente a chance de falha por esquecimento.
Outra característica importante é a reversibilidade: ao contrário de métodos definitivos, tanto o DIU quanto o Implanon podem ser removidos a qualquer momento, com retorno da fertilidade em um curto período na maioria dos casos.
Efeitos colaterais possíveis: o que costuma ser temporário
É comum que os primeiros meses de adaptação a qualquer um desses métodos venham acompanhados de alguma alteração no padrão de sangramento — seja o aumento de fluxo do DIU de cobre, o escape irregular do DIU hormonal no início do uso, ou a irregularidade menstrual do Implanon.
Na maioria dos casos, esses efeitos tendem a se estabilizar depois dos primeiros três a seis meses de uso, à medida que o organismo se adapta ao método. Quando isso não acontece, ou quando o desconforto é muito relevante para a rotina da paciente, essa é uma informação importante para ser reavaliada em consulta — inclusive para considerar a troca de método, se for o caso.
Comparando os métodos
| Método | Contém hormônio | Local de inserção | Efeito no ciclo menstrual |
| DIU de cobre | Não | Dentro do útero | Pode aumentar fluxo e cólicas, principalmente no início |
| DIU hormonal (Kyleena) | Sim (levonorgestrel, 52mg) | Dentro do útero | Tende a reduzir o fluxo menstrual |
| DIU hormonal (Mirena) | Sim (levonorgestrel, 19,5mg) | Dentro do útero | Tende a reduzir o fluxo menstrual |
| Implanon | Sim (etonogestrel) | Sob a pele do braço | Pode causar sangramento irregular |
A duração aproximada de uso de cada método também é avaliada de acordo com a orientação médica atualizada e as características de cada paciente — por isso não está incluída de forma fixa nesta comparação.
Não existe o “melhor” método — existe o método certo para você
É comum que uma amiga, uma colega de trabalho ou um post na internet recomendem o método que “funcionou melhor” para elas. Mas cada organismo responde de um jeito, e o que trouxe bons resultados para uma pessoa pode não ser a escolha certa para outra.
Por isso, em vez de partir de uma recomendação pronta, a consulta de contracepção parte da investigação: entender a rotina, o padrão menstrual, o histórico de saúde e as prioridades de cada paciente antes de indicar qualquer método.
O que é avaliado na consulta antes de indicar um método
- Padrão e intensidade do ciclo menstrual atual
- Histórico de saúde, incluindo condições que possam influenciar o uso de hormônios
- Desejo (ou não) de gestar em um futuro próximo
- Preferência pessoal quanto a manter, reduzir ou não ter mais menstruação
- Conforto com a ideia de um dispositivo intrauterino em comparação a um implante no braço
Esse levantamento é o que direciona a indicação — não existe uma resposta padrão, válida para todas as pacientes.
Mitos comuns sobre DIU e implante
“Colocar DIU dói muito”
A colocação pode causar desconforto e cólica durante o procedimento, que costuma ser rápido — mas a intensidade varia de paciente para paciente. Não é correto minimizar isso dizendo que não dói nada, e também não é correto exagerar: o manejo do desconforto é discutido antes do procedimento.
“O DIU pode ‘sumir’ dentro do corpo”
É uma preocupação comum, mas rara na prática, e acompanhada por avaliações de rotina. O anel de prata do Kyleena, por exemplo, facilita especificamente a visualização do dispositivo em exames de ultrassom de acompanhamento.
“Quem nunca teve filhos não pode usar DIU”
Esse é um mito antigo. A indicação de DIU não depende de a paciente já ter tido filhos — o que define a indicação é a avaliação individual feita em consulta.
“O implante hormonal sempre causa ganho de peso”
Não é uma regra. A relação entre métodos hormonais e peso corporal varia de pessoa para pessoa, e esse é justamente um dos pontos conversados individualmente antes da indicação do Implanon.
“DIU hormonal é a mesma coisa que a pílula anticoncepcional”
Não. Embora ambos utilizem progesterona, a forma de ação é diferente. A pílula age de forma sistêmica, circulando por todo o corpo, e depende do uso diário no mesmo horário. Já o DIU hormonal libera o hormônio localmente, dentro do útero, em doses menores, e não depende de nenhuma ação repetida da paciente.
Perguntas frequentes
O DIU de cobre engorda?
Por não conter hormônio, o DIU de cobre não costuma estar associado a alterações de peso relacionadas ao método. Ainda assim, cada organismo pode reagir de forma diferente, e isso pode ser conversado em consulta.
Depois de remover o DIU ou o Implanon, demora para engravidar?
Em geral, a fertilidade retorna rapidamente após a remoção de qualquer um desses métodos. O tempo pode variar de pessoa para pessoa, e esse assunto costuma ser conversado já na consulta de indicação, para quem já pensa em engravidar no futuro.
O parceiro sente o DIU durante a relação sexual?
Normalmente não. O fio do DIU, que fica posicionado no colo do útero, costuma ser cortado no tamanho adequado durante a colocação. Se houver desconforto relatado, esse ajuste pode ser reavaliado em consulta.
É possível usar esses métodos durante a amamentação?
Em muitos casos, sim — tanto o DIU quanto o Implanon podem ser considerados durante a amamentação, mas essa indicação depende da avaliação individual, incluindo o tempo pós-parto e o quadro geral da paciente.
O DIU protege contra infecções sexualmente transmissíveis?
Não. Nenhum dos métodos discutidos neste texto — DIU de cobre, DIU hormonal ou Implanon — protege contra infecções sexualmente transmissíveis. A proteção contra esse tipo de infecção depende do uso de preservativo, independentemente do método contraceptivo escolhido.
Posso trocar de método se não me adaptar bem?
Sim. A escolha inicial não é definitiva. Se o método indicado não trouxer o resultado esperado ou trouxer efeitos que impactam a rotina, essa avaliação pode ser revista em consulta, com a possibilidade de ajustar ou trocar de método.
Está em dúvida sobre qual método contraceptivo combina com o seu momento de vida? Agende uma consulta para uma avaliação individualizada.
Sobre a autora
Dra. Michelle Omodei é ginecologista e mastologista, formada e com residência em Ginecologia e Obstetrícia e em Mastologia pela UNESP. Atua com investigação clínica e acolhimento no cuidado da saúde da mulher, com destaque para contracepção, candidíase recorrente, menopausa e climatério e saúde íntima.
CRM 169743 | RQE 98733 (Ginecologia e Obstetrícia) · RQE 99046 (Mastologia)